segunda-feira, 25 de julho de 2011

Um Filme Sérvio e a volta da censura no Brasil

por Ricky Nobre
Os fãs brasileiros do cinema de terror assistiram nos últimos dias a cenas de pânico que culminaram num desfecho absolutamente aterrador. Não, não estou me referindo aos filmes barra pesada do Riofan, festival de cinema fantástico, de terror e ficção científica que aconteceu na Caixa Cultural . O que aconteceu fora das salas, no mundo real, foi bem pior.

Na última quarta-feira, dia 20, os organizadores do festival receberam um comunicado da Caixa Econômica Federal que dizia:

“Senhor Produtor, Informamos que, por decisão da Caixa Econômica Federal, o filme “A Serbian Film – Terror sem Limites” deverá ser retirado da programação da mostra RIOFAN, em cartaz na CAIXA Cultural RJ e patrocinada por essa Instituição.”

O filme em questão é um terror barra pesadíssima que fala de um ex- ator pornô sérvio que, para pagar suas dívidas e dar melhor situação à família, decide assinar contrato para mais um filme. Só depois descobre que se envolveu com perigosos produtores de snuff movies. Durante o filme, todo o tipo de horrores se desenrolam, inclusive necrofilia (mais especificamente, sexo com um corpo recém decaptado), o estupro de um recém nascido e o de um menino pelo próprio pai, além de diversos outros horrores. O diretor Srdjan Spasojevic afirma ter realizado o filme como uma alegoria dos horrores que seus conterráneos não apenas sofreram na Sérvia, mas que foram obrigados a praticar.


A organização do Riofan divulgou um comunicado contestando a decisão, afirmando a supresa com o veto, e que duas semanas antes o mesmo filme foi exibido em outros dois festivais no Brasil. Afirmam ainda que:

"Não há, sob qualquer ótica possível, apologia à violência sexual contra mulheres ou menores de idade no filme. São atos absolutamente grotescos e tratados como tal por uma obra que se insere numa tradição de filmes “extremos” - um subgênero do cinema de horror que lida com questões repulsivas de forma radical, com o intuito de buscar o choque e a reflexão nos espectadores." E ainda: "O RioFan é radicalmente contra qualquer forma de censura - um mal que assolou nosso país durante décadas e contra o qual muitos deram o próprio sangue para extirpá-lo do Brasil. Somos a favor da total e irrestrita liberdade de expressão, pedra de toque de qualquer sociedade democrática."

Em comunicado, a Caixa afirmou que o veto ao filme "está em consonância com a linha de atuação da Caixa, atenta aos conteúdos apresentados em seus espaços" e que não representa censura.


Em virtude do veto, o Grupo Estação cedeu o Odeon para que fosse feita a exibição prevista na programação do festival, no último sábado. Na noite de sexta, porém, um oficial de justiça compareceu ao cine Odeon com um mandato de busca e apreenção e confiscou a cópia do filme. A juíza Katerine Jatahy Nygaard determinou a apreensão após o diretório regional do DEM (Democratas) entrar com uma ação contra a exibição do filme. O texto afirmava queo filme é “verdadeira apologia a crimes contra criança e um incentivo para práticas de pedofilia”.

É fácil ver nos fóruns de internet que, dentre todos que viram o filme, gostando ou odiando, até as pessoas que mais se enojaram concordam que o filme não defende nem incentiva a nada.


Por essa lógica, Assalto ao Banco Central incentivaria as pessoas a roubar bancos! Não seria possível ter nenhum filme retratando nenhum tipo de crime. Para que esse filme especificament pudesse ser proibido, seria necessário:

1- (questão objetiva) Definir se algum
a criança efetivamente sofreu abusos durante as filmagens.

2 -(questão subjetiva) Definir se obra exalta, defende ou justifica os atos que retrata.

Em ambos os casos, seria imperativo que fosse realizado por uma comissão competente sem objetivos políticos, analizando cuidadosamente a obra, e não por uma canetada de uma juíza que nem viu o filme e só está reagindo ao pânico mo
ral deflagrado pelo boca a boca dos últimos dias.

A Serbian Film foi exibido completo em diversos festivais mundo afora, mas foi vetado em vários outros também. Para ser lançado em Bluray na Inglaterra, teve que ser cortado em 4 minutos e meio. O Brasil seria o primeiro país do mundo além da Sérvia em que o filme seria exibido em circuito comercial sem cortes. O distribuidor
Raffaele Petrini confirma o lançamento nos cinemas brasileiros, apesar da cópia confiscada: "Vamos lançar! Já estou recebendo e-mails de várias salas de cinema. Ele será exibido até porque não tem nexo essa ação, pois o filme não tem pedofilia".

Esse é o primeiro caso de censura prévia no Brasil em 27 anos, desde Je vous Salue Marrie. Na época, a pressão da Igreja levou à proibição de um filme que, visto até na época, não tinha nada de mais. Agora, as acusações de incentivo à pedofila levam à apreensão de um filme e a um terrível precedente. Não é o caso de apreensão de material pedófilo, pornografia infantil ou de um snuff real. A decisão da juíza nada mais é que uma reação ao pânico moral que a simples pronúncia da palavra "pedofilia" gera nos dias de hoje, sem que seja necessária menor confirmação das acusações.


Particularmente, não vi Albergue, nenhum dos Jogos Mortais e evito horror e gore extremo. E não pretendo descobrir se A Serbian Film é uma séria e importante obra sobre as atrocidades cometidas pelo ser humano ou se é um lixo oportunista e mal realizado. Mas essa é a MINHA decisão. Censura (e censura NÃO É classificação etária, algo imprescindível) parte do princípio de que somos todos crianças, incapazes de decidirmos o que queremos ou não ver.

E eu que achava que estávamos na vanguarda mundial contra a censura...


Detalhe: no horário em que o filme seria exibido, 90 pessoas protestaram contra a censura em frente ao Odeon. Mais gente do que cabe na salinha da Caixa Cultural onde ele seria inicialmente exibido. Nada como uma boa censura para aumentar o interesse das pessoas por filmes obscuros que antes ninguém sabia que existiam.



9 comentários:

†łivrø dαs søмbrαs† disse...

Nossa eu também nunca tinha ouvido falar desse filme!! Quero assistir *-*

Patrícia Balan disse...

POMBAS! País do futuro de novo?! O truque mais velho do planeta para chamar atenção e a gente cai feito pato DE NOVO! Quem decide essas coisas, e com que autoridade? Ótimo! Agora todos os meus alunos acerebrados vão correr atrás das cópias piratas e contar detalhes do filme nas salas de aula dizendo que foi "o maior barato", depois de passar a noite em claro e fazer xixi na cama de manhã.

Renato Rodrigues disse...

Que polêmica, heim! Maior bola fora...

Nanael Soubaim disse...

Eles vão inventar um monte de verborragias prolixas e enfadonhamente retóricas para negar que seja censura. Será palavra contra palavra, e mais um violino em solo para acompanhar a estorinha de luta contra a ditadura, que cansei de ouvir de politipatas da prefeitura.
Enfim, agora sabemos que no lugar do lobo, o chacal também ataca novilhas.
Graças ao chavismo esmaecido da actual regência da caixa, o filme já é um sucesso undergrownd.

Arcanjo Lycan disse...

Sinceramente, o Brasil tem umas situações que me envergonham. Isso aí por exemplo, porque vejamos, Cidade de Deus (ou dos Homens, nem sei) é um filme que mostra tanta cena de sexo, tanta violência... mostra tanta coisa que é real, que realmente acontece no Rio e um filme desse que eu considero até uma espécie de "terror artístico" sendo censurado. Era só o que me faltava, é simples, quem tem vontade de assistir, assistirá! Proibição gera polêmica e aí é que o "filme proibido" vai fazer mais sucesso ainda. E cuidado, a censura voltando aos poucos, tentaram com os humoristas nas eleições, j´estão nos filmes, daqui uns dias não podemos expor nossas ideias nem em nossos blogs.

Eddie disse...

A Censura é algo que me ofende profundamente! Não admito deixar alguém decidir por mim o que eu posso ou não ver. Podem me alertar, mas não me impedir! Só de sacanagem, agora eu quero ver esse filme (que duvido que seja bom, especialmente porque eu não gosto de Jogos Mortais e esse parece um primo de mau humor desta franquia). Agora, hoje com Internet, acho muito difícil impor a censura. Viva a Era de Aquário!

Ricky Nobre disse...

Adicionei trailer.

A galera doida que quiser ver o filme deve estar atenta aos torrents. Procure por cópias UNCUT. A maioria foi ripada do Bluray inglês, sendo, portanto, cortada em quase 5 minutos.

Patrícia Balan disse...

Gente, agora que eu notei. A liberdade de escolha também entrou pro clube dos 27 junto com Amy Winehouse. 27 anos sem cair na babaquice e, de repente, TCHIBUUUUM!

Filme forte é Munique, Platoon, Uma Verdade Inconveniente, o documentário A História das Coisas e outros que mostram que enquanto a gente tá reciclando garrafa Pet as grandes corporações e os pequenos terroristas continuam empurrando o mundo pro saco - e que mesmo assim a gente TEM que continuar reciclando a porra da garrafa pet!

Jesus Cristo dilacerado, castração feminina e estupro de neném de borracha besuntado de groselha eu não vejo nem de graça! Tempo é dinheiro!

Anônimo disse...

Pois só porque foi censurado eu VOU assistir, dane-se.